Entre um trago e outro de cigarro, o celular toca.
Era uma ligação atípica. Ligação daquelas que só se recebe em casos extremos.
Atendi receosa: “Alô ?”
Respondeu séria: “Você vai pra casa ? Preciso ter uma conversa muito séria com você."
Eu: "Hum.. Aconteceu alguma coisa ?"
Já com a voz um pouco mais alterada, respondeu: “Você está fazendo besteira. Chegar em casa vamos conversar!”
Ao desligar, senti um leve frio na barriga.
Pensei: “O que será ? Merda! Será que ela descobriu o que fiz mês passado ? Impossível!"
Quase que de súbito, as milhões de vozes que outrora me pertubavam e me alertavam, voltaram ainda mais a vontade e abusadas:
- “Ta vendo aí! Eu sabia que ia dar errado."
- “É.. acontece.”
- “ Agora dá um jeito de corrigir o que você fez.”
- “Queriida, está no inferno, abraça o capeta.”
Eu: “Ok. Mas acho que não foi isso. Será que foi alguma coisa que fiz semana passada ? O que será ???"
E em tom de acusação, responderam:
- “Burra! Você sabe muito bem o que você fez. Só está tentando se enganar e fingir que está tudo bem.”
- “Quer enganar quem, meu bem ? A miiim você não engana! “
- “A nós você não engana!”
Eu: “Ta!! Chega! Pra variar vocês não estão ajudando. Não adianta mais ficar falando.”
Ali naquele engarrafamento eu não podia fazer muita coisa.
Adormeci.
Desejei que quando eu acordasse, aquela situação não passasse de um sonho ruim.
Ao chegar em casa eu tive a certeza de que não era um pesadelo e tive a noção da proporção da besteira feita.
No fim, diante de tanta lamentação e desespero, a voz (da consciência) completou: “Eu avisei!!”